O que muda na vida de um casal quando chega o filho?

Quando queremos nos tornar profissionais e atuar em alguma área do conhecimento, o que fazemos? Estudamos para sermos professores, médicos, engenheiros, advogados etc. A nossa vida profissional atualmente tornou-se muito importante, talvez até mais que a nossa própria vida afetiva. Em consequência disto, nem sempre estamos preparados para os nossos relacionamentos. Será que todos que desejam serem pais, se preparam para conviver e compreender o que acontece com uma criança desde a vida intra uterina, até se tornarem adultos?

A partir do momento em que o casal resolve ter o filho, a relação dual passa a ser uma relação triangular, marcada por uma nova hierarquia na qual cada um deve assumir seu novo lugar.

Além da relação dual entre macho e fêmea, que continua a existir na relação triangular, surgem as figuras do pai, da mãe e do filho, com as suas respectivas funções. Estar instrumentalizado para lidar afetivamente com a relação triangular, é muito importante, uma vez que a criança, indefesa, vem preencher um lugar ainda não existente na vida do casal.

“Os sujeitos querem ser reconhecidos uns pelos outros, amados, notados, desejam ter valor para os outros. Cada um deseja ser engendrado, reconhecido e revelado pelo outro como merecedor de sua estima.”
Françoise Dolto. O Evangelho à Luz da Psicanálise, pg.102

 

A ENTRADA DO TERCEIRO ELEMENTO

Muitos homens, quando pais pela primeira vez, procuram a terapia pelo fato de estarem totalmente despreparados para a paternidade. Então, esses novos pais costumam dizer: “Estamos casados há quatro anos, o nosso relacionamento era muito bom, queríamos ter um filho, achávamos que já havia chegado a hora e agora percebo que perdi minha esposa para o nosso bebê”. Por que, quando uma criança nasce, uma série de novos conflitos surge na vida do casal? Lidar com o novo, de fato, é um desafio, principalmente quando isso envolve um aumento significativo de responsabilidades. O que, afinal, uma criança acarreta?

Mais trabalho, sem dúvidas. Assim sendo, quem vai realizar esse trabalho? No início, a criança depende mais da mãe do que do pai: há a ligação placentária, o leite materno, os cuidados com a higiene etc. Mais trabalho resulta, então, em menos tempo, exigindo mais energia, de dia e à noite. Nesse caso, quem vai sacrificar seu tempo? Quem vai investir mais energia diante do bebê: a mãe ou o pai?

A mulher, que já enfrentou todas as transformações fisiológicas da gravidez e teve que se adaptar a novas condições ao longo de nove meses, ao que tudo indica, nos primeiros seis meses, sente mais a chegada do bebê do que o homem. Um filho vai trazer impacto sobre o orçamento familiar. De onde virá, então, o dinheiro? Provavelmente, de fato, será necessário abrir a mão de muitas coisas e cuidar da qualidade.

Muitos casais dizem que o casamento antes dos filhos era bom, mas enfrentavam algumas dificuldades e esperavam que o filho nascesse para unir ainda mais o casal. O que se percebe na prática clínica, porém, é que, com a chegada do filho, todos os problemas que já existiam, mas estavam guardados, emergem de uma forma assustadora. Então, nem sempre o casal tem disposição e estrutura para enfrentar a exposição de seus conflitos.

O relacionamento entre pais e filhos nos proporciona a primeira experiência do que poderíamos chamar de amor incondicional, o que se mistura, de modo confuso, ao amor condicional. De modo geral, afinal, a maioria dos pais tem uma significativa ligação com o bebê recém-nascido, no entanto, imporão as condições seu amor, de uma maneira clara ou sutil, fazendo uso de tal amor como forma de controlar o filho, utilizando-o como uma recompensa por comportamentos desejáveis.

Em função desse amor, homem e mulher procuram ser “excelentes pais”, mas acabam por se esquecer da vida do casal. Muitas vezes inconscientemente, acabam por permitir que a relação se enfraqueça. Tal processo, lento e gradual, de enfraquecimento da intimidade do casal é decorrente da escassez de de tempo, o que implica na falta de demonstração de amor e diálogo.

Muitas pessoas acreditam que um filho segura o casamento, isto é falso: o que acontece, de fato, é que, com a chegada do filho, muitas coisas mudam e o casal, num primeiro momento, envolve-se muito com a criança, deixando de olhar para seus próprios problemas. A partir do momento em que a chegada do bebê se consolida. Surgirá a necessidade de mudanças fundamentais, como: a resolução rápida de conflitos; um diálogo sustentável; melhor convivência com as diferenças do outro; aprofundamento do compromisso e manifestação do amor pelo outro. Tais mudanças exigem tempo, o que parece escasso na vida moderna, mesmo assim, marido e esposa precisam encontrar meios de desenvolver habilidades para lidar com tais situações. Então, é muito importante salientar que nunca é tarde demais para contornar conflitos quando tanto o homem quanto a mulher estão motivados e se disponibilizam para seu reencontro.

Como tudo na vida acontece em fases, o mesmo acorre com o casamento. Essa apresenta quatro fases: a infância, a adolescência, a fase adulta e a maturidade.

A fase da infância do casamento é aquela da busca de novos padrões para se organizar a vida matrimonial, havendo, então, certa empolgação e muita alegria. Já a fase da adolescência traz ao matrimônio uma sensação de mudança, ora indesejada, ora ansiada. Isso gera muitas contradições e fantasias, o que torna os cônjuges, às vezes, muito apreensivos, confusos entre os altos e baixos e certas turbulências, ficando, em alguns momentos, desestimulados e inseguros. A fase adulta do casamento, por sua vez, exige que se compartilhem compromissos, podendo trazer satisfação e segurança à vida a dois. Já a fase da maturidade matrimonial traz a garantia clara do amor de um cônjuge pelo outro, os quais procuram manter-se ligados, apoiando-se o tempo todo.

Todas essas fases serão vivenciadas, também, pela criança, ao longo de seu desenvolvimento. O maior ou o menor cuidado com ela fará com que atravesse cada fase com maior ou menor dificuldade, desenvolvendo-se ou não, assim, como um ser humano saudável, física, emocional e socialmente.

Aos seis meses, o bebê chora diante de estranhos. Tal é o primeiro sinal de que a criança já reconhece o pai e a mãe como referência afetiva constante. A partir daí, percebemos que surgem situações conflituosas entre o marido e a mulher, como: divisão do trabalho e das ocupações familiares; administração das finanças; falta de disposição e frustração sexual; dificuldades de estar a sós; diferenças de opiniões em relação à educação dos filhos. Essas, enfim, são algumas das situações mais críticas que observamos durante os primeiros meses de paternidade do casal.

Dividir o trabalho e as ocupações familiares exige que cada um assuma o seu papel e, através do diálogo, consiga estabelecer as ocupações que venham ao encontro de suas habilidades. Deve-se aceitar ajuda externa, caso seja possível, a fim de dividir tarefas. Isso, afinal, não traz nenhum demérito aos novos pais.

A administração das finanças também requer tempo significativo para ser ajustada, uma vez que o descontrole pode gerar conflitos que venham a destruir a relação. Assim, aquele que tiver mais habilidade nesse âmbito deve se ocupar disso. A falta de disposição e lidar com a frustração sexual, com a vinda do filho, é outra necessidade a ser observada. A rotina se altera e a adaptação à nova situação exige dedicação, apesar de acabar com a energia de quem mais se ocupar disso. Devemos entender que, assim que for possível, o casal deve tirar um tempo só para si, a fim de que possa reafirmar o desejo de homem e mulher de estar juntos. Caso contrário, a relação começa a correr riscos. As diferenças de opinião em relação à educação do filho é um fator que pode interferir na vida do casal e que, se não forem bem elaboradas, pode vir a causar a desestruturação da criança. É importante, então, que os casais constantemente se alinhem diante da filosofia que querem aplicar na educação dos filhos.

Educar um filho é um trabalho interminável, que se dará por toda a existência e que exige acolhimento, paciência, compreensão e amor, consigo e com o outro; atitudes, aliás, que serão desenvolvidas ao longo do processo de educação e cujo resultado só será reconhecido após muitos anos.

 

HÉLIO FERNANDO FERREIRA CYRINO

Hélio Fernando Ferreira Cyrino, é autor de COMO EDUCAR OS FILHOS E MANTER O CASAMENTO HOJE- Editora Pontes e atua como psicanalista em Vinhedo: Clínica Médica Nelson Faidiga Filhos e Associados – Rua Fernando Costa, 858 – Fone (19) 38763020 e em Campinas: Clínica Médica Struckel Miguel – Av. Dr. Moraes Sales 1136 1º Andar – Fone (19) 32533616

Comments ( 2 )

  • Monique

    Parabéns

    • paraiso

      Muito obrigado, Monique. Continue acompanhando nossas postagens!

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